Artes de Juazeiro do Norte (CE)

Artes de Juazeiro do Norte (CE)

Surgida no sopé da Chapada do Araripe, na microrregião do Cariri, Juazeiro do Norte, com seus 250mil habitantes, é um dos maiores centros de religiosidade popular da América Latina. A fé católica, em torno da figura do Padre Cícero Romão Batista, movimenta a economia local e regional e faz a cidade ter um crescimento demográfico e econômico contínuos.

 

Os diferentes tipos de artesanato na região produzem peças as mais diversas possíveis. Há esculturas sacras e bancos de madeira, oratórios, igrejinhas, nichos em madeira ou vidro e bonecas de pano – conhecidas como calungas. Candeeiros e lamparinas de zinco ou flandres; aviões, helicópteros e parque de diversões também em flandres; zabumbas em couro e madeira, amarradas com cordeamento em palha natural; matrizes de xilogravuras; literatura de cordel; placas de alto relevo em argila, que retratam temas das manifestações culturais  e os retirantes; e finalmente os mamulengos em madeira, todas essas produções podem ser encontradas em Juazeiro do Norte.

 

Juazeiro do Norte, no Ceará, tornou-se nacionalmente conhecida por ser um dos mais importantes centros de devoção popular católica do país. É a terra onde viveu e morreu Padre Cícero Romão Batista e que abriga, hoje, o Santuário de Nossa Senhora das Dores, visitado anualmente por milhares de peregrinos e turistas.

 

Juazeiro é também um importante núcleo de produção artesanal, e essa vocação está ligada à história da cidade e à atuação da figura carismática de Padre Cícero, que muito incentivou a população local a produzir artesanato como forma de geração de renda. No município, podemos encontrar uma diversidade muito grande de produtos artesanais, em que se destacam:

 

Artesanato em palha
Executado predominantemente por mulheres, o trabalho com a palha da carnaúba constitui um microuniverso em Juazeiro, concentrado na rua do Horto, o caminho por onde passam os romeiros a pé quando se dirigem à estátua de Padre Cícero.

 

Mais de 200 famílias têm na venda de artigos em palha uma complementação da renda. Enquanto os homens estão ocupados na lavoura ou no emprego, as mulheres, entre as tarefas domésticas, dedicam-se à confecção de chapéus, bolsas, esteiras, vassouras e revestimento para garrafas de aguardente.

 

Esses produtos são vendidos diretamente ao consumidor, na porta das casas, nas barraquinhas de comércio das ruas da cidade e na própria rua do Horto. Nos armarinhos e armazéns da cidade são vendidos por intermédio dos comerciantes locais, em quantidades maiores ou por encomenda, e, na época das romarias e nas festas de São João, alcançam os melhores preços.

 

A palha da carnaúba, seca, é comprada na Feira da Palha, em Juazeiro, ou em um caminhão que circula no Horto de 15 em 15 dias para abastecer as artesãs. A tinta para tingi-la, o carvão para o ferro de engomar os chapéus e a linha para costurar são comprados no mercado local.

 

Parte da palha é tingida em cores variadas, e os talos que sobram são vendidos às artesãs que produzem vassouras. Para confeccionar os objetos, as artesãs cortam a palha em pequenas tiras, que, depois, são trançadas diretamente ou com a ajuda de um molde, como no caso dos chapéus e das bolsas.

 

Cerâmica
Os ceramistas de Juazeiro trabalham com barro retirado do brejo das redondezas e levado à casa das artesãs em carroças. Depois de seco, o barro é batido a pau ou socado no pilão, e em seguida peneirado para ficar fino e macio. É, então, molhado e amassado, e está pronto para a modelagem, que é feita à mão, sem torno ou formas.

 

As peças figurativas representam o reisado, a banda cabaçal, o bumba-meu-boi, a lapinha, cangaceiros, santos, violeiros, casais de noivos, ladrões de galinha, lavradores, gestantes e animais. Também são produzidas máscaras para parede e placas com cenas variadas, que denominam “temas”.

 

Esculturas em madeira
A madeira utilizada no artesanato de Juazeiro, especialmente umburana de cambão, aroeira e timbaúba, é trazida de fora, em geral de Pernambuco. Com ela, são confeccionadas peças utilitárias como pilões, gamelas, colheres de pau, dornas para cachaça, e principalmente esculturas figurativas, como representações de santos, de Padre Cícero, de temas regionais como Lampião, Maria Bonita, o carro de boi, os tropeiros, a banda cabaçal, e de animais, como patos, bodes, bois e urubus, entre outros.

 

Ourivesaria
A fabricação de joias é um dos mais importantes ramos da produção artesanal em Juazeiro. O ouro é comprado de viajantes e misturado em liga com prata e cobre para a produção de brincos, anéis e cordões.

 

Folheto de cordel e xilogravura
A cidade de Juazeiro do Norte foi e continua sendo palco da produção de alguns dos mais notáveis artistas xilógrafos do Brasil. Mestre Noza, Walderêdo Gonçalves, João Pereira, Manoel Lopes, José Imaginário e Damásio Paulo são alguns dos nomes de peso da xilogravura nacional que produziram em Juazeiro do Norte.

 

Introduzida na região no início do século 20, a xilogravura ganhou destaque por meio da literatura de cordel. Essa arte entalhada em madeira de umburana se ligou umbilicalmente ao folheto, ao romance ou à história. Passou a ser uma espécie de síntese da narrativa a partir dos elementos mais fortes e expressivos. Tornou-se, assim, a representação visual desse imaginário, alcançando enorme popularidade.

 

No final da década de 1950 a fabricação dos folhetos começou a apresentar sinais de declínio, devido ao incentivo do governo na industrialização do Nordeste. Nesse contexto, o cordel se constituía como algo anacrônico, na contramão da ideia vigente de desenvolvimento. No início dos anos 1960, a chegada da televisão a Recife e Fortaleza contribuiu para a reformulação do imaginário e influenciou fortemente os hábitos interioranos. Para completar, com o golpe de 1964, a indústria do papel entrou em uma grave crise que repercutiu de modo irreparável na fabricação da literatura. Abraão Batista e Stênio Diniz foram os gravadores que atuaram de modo mais marcante nesse período.

 

Na segunda metade dos anos 1980, entretanto, um “renascimento” da xilogravura começou a se implantar. A exemplo de Mestre Noza, autor de uma via sacra que se tornou famosa após exposição na França, alguns artistas começaram a cortar xilos de formatos maiores e de temas variados, sem ligação com a literatura de cordel. Muitos trabalhos foram premiados em instituições do Brasil afora, e alguns artistas chegaram a ter diversas peças expostas em países da Europa. Hoje, elas têm lugar reservado em muitos acervos particulares e de instituições públicas.